"Meu nome é Lola. É assim que me chamam. Quando gritam o meu nome, sei que me querem perto deles. Psicologicamente posso ser definida como um animal incapaz de mentir ou fingir. Minha alma mora na minha pele. Quando estou alegre, meu rabo abana por conta própria, independente da minha vontade. Quando a alegria é demais, dou umas mijadinhas. Quando estou triste, meu rabo e minha cabeça abaixam. Quando estou com sono, me esparramo no chão, do rabo ao focinho. Tudo se dependura: pele, orelha, testa, olhos. Meu dono gosta de mim embora fique bravo quando eu pulo para abraça-lo e lhe dou uma lambida. O que é verdade para mim não é verdade para o meu dono. A alma dele não mora na pele. Ele mente. Ele finge. Nunca vai dar uma mijadinha de felicidade. Talvez ele não seja suficientemente feliz para isso. Às vezes, eu estou deitada do jeito como descrevi e ele esta assentado numa cadeira. Ele olha para mim de um jeito diferente. Não é alegria. Não é tranqüilidade. Acho que é inveja. Ele gostaria de ser como eu sou, mas não tem coragem...está morrendo de vontade de se esparramar também no chão frio, com eu. Mas não o faz. Fico a pensar: o que impede? Acho que é vergonha. Os homens têm vergonha um dos outros. Sou feliz porque não tenho vergonha e faço o que quero. Talvez essa seja a razão por que os homens gostam de ter pets: porque nos pets eles protejam uma felicidade que eles mesmos não têm. Diga-me o pet que você tem e eu saberei como é sua alma. Os pets têm uma função terapêutica. Bem, eu sou uma cadela, e tudo o que disse foi de brincadeirinha. Porque eu mesma, na realidade, me contento em ser feliz. Não gasto tempo pensando essas coisas..."
Rubem Alves
domingo, 23 de novembro de 2008
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